segunda-feira, 8 de julho de 2013

Gás de folhelho estimula economia dos EUA

O avanço significativo da indústria de gás e petróleo de folhelho nos EUA já produz um impacto considerável sobre a economia americana, tendência que deverá se aprofundar nos próximos anos, afetando também a economia global.
Com a chamada "revolução do folhelho", as previsões apontam um crescimento mais forte do Produto Interno Bruto (PIB), maior geração de empregos, mais receitas para os cofres públicos e um impulso importante à reindustrialização nos EUA, ao baratear o custo da energia. Há ainda um efeito sobre as contas externas americanas, com a dependência menor das importações, o que terá implicações geopolíticas relevantes - há quem aposte em queda não desprezível dos preços do petróleo (ver quadro ao lado).
A equipe de commodities do Citigroup Global Markets estima que, em 2020, o PIB americano será de 2% a 3,3% maior do que seria devido ao impacto cumulativo da nova produção de gás e petróleo, em grande parte devido à indústria do xisto, do menor consumo e das atividades associadas ao setor, diz o analista do Citi Eric Lee. A equipe do Citi espera ainda a criação de 2,7 milhões a 3,6 milhões de empregos nesse período.
A fatia do gás de folhelho na produção total de gás natural dos EUA pulou de 4% a 5% em meados da década passada para 34% em 2012. Em 2040, deve atingir 50%, segundo a Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA, na sigla em inglês). Pelas projeções da EIA, a produção local de gás deve superar o consumo doméstico por volta de 2020, tornando os EUA um exportador líquido. No caso do petróleo, a EIA estima no cenário básico que o país continuará a ser um importador líquido até 2040, embora a parcela do consumo abastecida por produtos do exterior, de 37%, deverá ser inferior aos 40% de 2012 e muito menor que os 60% de 2005. Em 2012, a fatia do petróleo de folhelho na produção total ficou um pouco abaixo de 30%.
A produção de gás e petróleo de folhelho tem crescido com força nos últimos anos graças a avanços tecnológicos como a fratura hidráulica e a perfuração horizontal. Na primeira, as rochas de xisto são fraturadas para liberar o gás e o petróleo que está dentro delas, com a injeção de água a alta pressão, produtos químicos e areia.
Vice-presidente para o setor público da consultoria IHS Global Insight, John Larson diz que o termo "revolução de folhelho" não é exagero. "É o evento mais importante do setor de energia deste século até o momento." A IHS estima que a indústria do petróleo e do gás não convencional gerou US$ 238 bilhões em termos de valor adicionado para a economia americana, valor que deve subir para US$ 416 bilhões em 2020. "Dados os atuais níveis de produção, essas estimativas podem ser conservadoras", observa Larson.
A consultoria estima ainda que, em 2012, 1,7 milhão de empregos diretos, indiretos e induzidos podiam ser atribuídos aos setores de gás e petróleo não convencional, número que pode atingir 3 milhões no fim da década. "E são empregos de boa qualidade, num momento em que o desemprego ainda é elevado. A maior parte deles paga de US$ 34 a US$ 36 por hora." Em maio deste ano, a média dos salários no setor privado americano estava pouco abaixo de US$ 24 por hora.
A geração direta de empregos no setor de exploração de petróleo e gás tem crescido muito acima da média geral, segundo informações da EIA. De janeiro de 2007 a setembro do ano passado, o emprego no segmento de perfuração cresceu 9,3%; na extração de petróleo e gás, 35,6%; e em atividades de apoio, 55,3%. No mesmo período, o total no setor privado aumentou 0,3%. A fatia total do setor no emprego privado, porém, é de apenas 0,5%.
Um estudo da consultoria Capital Economics relativiza as mudanças que ocorrem no setor de petróleo e gás justamente por causa de seu tamanho pequeno em relação à economia. De acordo com a pesquisa, o setor de mineração como um todo responde por algo como 2% do valor adicionado nos EUA, por exemplo.
"Além disso, a expansão da produção é esperada para ocorrer num período de uma década ou mais, o que significa que o impacto no crescimento anual do PIB será muito modesto, não mais do que alguns décimos de um ponto percentual", diz o relatório da Capital.
Um ponto adverso levantado por alguns analistas é a rápida taxa de declínio dos poços de gás de folhelho, o que requer perfuração contínua para manter a produção em crescimento. Isso poderia ser um obstáculo à sustentabilidade do atual boom.
Além disso, há também o impacto ambiental envolvido na extração de petróleo e gás de folhelho. Existe, por exemplo, o risco de contaminação de fontes subterrâneas de água potável. Há quem lembre, entretanto, que gerar eletricidade com gás natural emite metade do CO2 do que com carvão.
Um dos impactos importantes da indústria do xisto sobre a economia americana é o estímulo para o renascimento da indústria, diz Larson, ressaltando também outros fatores, como o estreitamento da diferença entre os salários nos EUA e nos países asiáticos.
A forte queda do preço do gás natural nos últimos anos barateou o custo da energia, ajudando a tornar mais atraente a produção de produtos industriais nos EUA. Atualmente, os preços do gás natural estão na casa de US$ 4 por milhão de BTU (British termal units), muito abaixo dos quase US$ 13 registrados em meados de 2008.
Um estudo do Goldman Sachs Asset Management (GSAM) ressalta os benefícios para a economia americana da dependência menor das importações. Os analistas do GSAM estimam que cada barril de petróleo produzido domesticamente, em vez de importado, contribui com US$ 170 para o PIB, levando em conta um preço de US$ 100 por barril.
Com base no que consideram premissas "modestas" para o crescimento da produção e para a demanda, a contribuição anual para o PIB pode ser de 0,1% a 0,15%, devido ao aumento do investimento e à substituição de importações.

"Revolução" pode ajudar petróleo a cair a US$ 70 o barril no fim da década

A "revolução do folhelho" terá um papel importante na redução do déficit americano nas suas contas externas, ao diminuir a necessidade de importações, podendo contribuir também para uma queda dos preços do petróleo no mercado internacional.
Para o analista de commodities Eric Lee, do Citigroup Global Markets, as cotações do Brent vão oscilar entre US$ 70 e US$ 90 no fim da década, um intervalo consideravelmente inferior aos US$ 90 a US$ 120 observados desde o ano de 2011.
Segundo ele, o que se passa nos EUA, onde a produção do petróleo sobe com força, terá uma influência significativa nesse processo, o que representará um desafio aos países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). O Citi vê ainda um cenário em que há "oportunidades claras" de substituição de derivados de petróleo por gás natural como combustível em veículos, trens, caminhões e navios. Se concretizado, isso ajudará a reduzir a demanda por petróleo.
Lee espera uma queda do déficit em conta corrente americano, hoje na casa de 3% do PIB. Em 2020, o número pode estar na casa de 2,4% do PIB, estima o Citi.
Segundo o banco, a melhora do déficit em conta corrente ocorrerá não apenas pela redução direta das importações de petróleo e gás e do aumento das exportações desse produtos, mas também pela queda dos preços de petróleo e da alta das vendas externas de bens de maior valor agregado em setores como o petroquímico e o de metais, beneficiados pela oferta de energia mais barata. O dólar teria uma valorização real (ajustado pela inflação) de 1,6% a 5,4% até o fim da década.
O Citi considera que a possibilidade de independência energética de toda a América do Norte antes de 2020 é extremamente elevada, existindo até mesmo uma perspectiva real de autossuficiência dos EUA no começo da próxima década, diz Lee. (SL)