domingo, 14 de julho de 2013

Como a ciência explica o pessimismo?

Estudos indicam que comportamento pessimista pode ser explicado por fatores genéticos e que quem é otimista vive mais.

Michael Mosley Da BBC

Estudos indicam que comportamento pessimista pode ser explicado por fatores genéticos e que quem é otimista vive mais. (Foto: BBC)Estudos indicam que comportamento pessimista
pode ser explicado por fatores genéticos e que
quem é otimista vive mais. (Foto: BBC)
Muitos de nós nos consideramos ou pessimistas ou otimistas. Mas será que a ciência é capaz de explicar por que nos sentimos assim - e se podemos mudar?
Vejamos o exemplo das gêmeas idênticas Debbie e Trudi: elas têm muito em comum, salvo pelo fato de Trudi ser animada e otimista, enquanto Debbie passa por momentos de profunda depressão.
Ao estudar um grupo de gêmeos idênticos como Debbie e Trudi, o professor Tim Spector, do Hospital St Thomas, em Londres, tenta responder questões fundamentais sobre a formação de nossa personalidade. Por que algumas pessoas são mais positivas do que outras a respeito da vida?
Fator genético
Spector identificou alguns genes em funcionamento em um dos gêmeos e não no outro.
Estudos com gêmeos indicam que, quando se trata de personalidade, cerca de metade das diferenças entre as pessoas são decorrentes de fatores genéticos. Mas Spector ressalta que, ao longo de nossas vidas - e em resposta a fatores ambientais -, nossos genes estão constantemente sendo ajustados, em um processo conhecido como epigenética.
Em casos como o de Debbie e Trudi, os cientistas encontraram diferenças em apenas cinco genes no hipocampo. É isso, acreditam eles, que desencadeou a depressão em Debbie.
Spector, que se descreve como otimista, espera que sua pesquisa ajude a melhorar os tratamentos disponíveis para depressão e ansiedade.
'Costumávamos dizer que não podíamos mudar nossos genes', diz ele. 'Agora sabemos que existem esses pequenos mecanismos para 'ligá-los' ou 'desligá-los'.'
Ainda mais surpreendente é a pesquisa que identificou mudanças na atividade genética causadas pela presença ou ausência do amor materno.
O professor Michael Meaney, da Universidade McGill (Canadá), está pesquisando maneiras de medir a ativação dos receptores de glicocorticóides nos nossos cérebros. Isso porque o número desses receptores é um indicativo da habilidade de cada um em suportar o estresse.
E também é uma medida de o quanto fomos cuidados por nossas mães durante a infância - ao refletir o quão ansiosas e estressadas eram as nossas mães e o impacto disso na quantidade de afeto que recebemos quando pequenos.
'Estado mental afetivo'
Elaine Fox, da Universidade de Essex, na Grã-Bretanha, é outra pesquisadora interessada em como o nosso 'estado mental afetivo' - a maneira como vemos o mundo - nos molda.
Além de usar questionários, ela e sua equipe investigam padrões específicos na atividade cerebral. Sua pesquisa indica, por exemplo, que uma pessoa com mais atividade elétrica na parte frontal direita do córtex (em relação à esquerda) tem mais tendência ao pessimismo e à ansiedade. Outros testes adicionais ajudam a confirmar ou não essa percepção.
Pessoas pessimistas, constantemente à espera de coisas que podem dar errado, costumam ter mais estresse e ansiedade. E isso é mais do que um estado de espírito - é algo fortemente ligado à nossa saúde.
Em um estudo iniciado em 1975, cientistas pediram que mais de mil pessoas na cidade de Oxford, Ohio (EUA), preenchessem um questionário sobre empregos, saúde, família e perspectivas para a velhice.
Décadas depois, Becca Levy, cientista da Universidade Yale, monitorou os entrevistados. Ao observar as certidões de óbito ela notou que as pessoas mais otimistas quanto à velhice haviam vivido, em média, sete anos e meio a mais do que os pessimistas.
A impressionante descoberta levou em conta outras explicações possíveis, como o fato de pessoas mais pessimistas possivelmente terem sido influenciadas por doenças prévias ou depressão.
Freiras
Resultados semelhantes foram notados em um estudo da Universidade de Kentucky, que analisou os diários de 180 freiras católicas, escritos quando elas entraram no convento, nos anos 1930.
Freiras que vivem em comunidades fechadas são um bom objeto de estudo científico porque compartilham experiências ambientais semelhantes, algo que permite comparações realistas.
Nos diários, os cientistas procuraram indícios de otimismo e pessimismo entre as freiras. Ao pesquisar suas vidas, eles descobriram que as que expressavam emoções mais positivas durante a juventude viveram até dez anos mais do que as que não tinham essa mesma perspectiva de vida.
A boa notícia é que, mesmo na idade adulta, você pode mudar suas percepções sobre a vida. Até mesmo para pessimistas, isso é motivo de celebração.