domingo, 11 de agosto de 2013

Tafonomia de Vertebrados - Transporte


Quando um animal morre, se não for soterrado imediatamente, ele geralmente se desarticula e seus restos esqueletais tendem a ser transportados para longe de onde o animal morreu. O estudo do transporte é uma das análises mais fundamentais na tafonomia, já que, muitas vezes, o local onde o fóssil foi encontrado não necessariamente reflete o tipo de local o qual o animal habitava, enquanto era vivo.
Como vimos no texto introdutório, a Tafonomia serve como uma excelente ferramenta na análise Paleoecológica, que é aquela que nos dá informações sobre como o animal vivia, com que outros grupos se relacionava, como se alimentava, etc. Desta maneira, sempre que fazemos análises paleoecológicas com o intuito de reconstruir determinado ambiente onde um animal vivia, é necessário analisar os fósseis partir do ponto de vista de quão transportados eles foram, pois conhecer a vida dos animais em seus paleoambientes (aqueles ambientes antigos, guardados no registro fóssil) depende do entendimento de onde o animal viveu, e não onde foi soterrado. Desta maneira, o paleontólogo deve saber diferenciar uma assembléia fóssil de acordo com o transporte sofrido por estes organismos.
Uma assembléia autóctone/parautóctone é aquela onde os restos se encontram preservados no mesmo ambiente onde os organismos viviam, diferenciando-se se estão em posição de vida (autóctones) ou não (parautóctones). Por outro lado, uma assembléia alóctone é aquela constituída por fósseis que foram transportados de seu ambiente original.
Apesar de existirem muitos estudos sobre a questão da transportabilidade dos elementos esqueletais, não é fácil identificar quanto um material foi transportado antes de ser soterrado. Em 1969, um paleontólogo chamado Voorhies resolveu estudar a questão da transportabilidade em ossos de mamíferos atuais. Atrás de sua casa corria um rio, e este pesquisador resolveu jogar esqueletos completos, mas já sem seus tecidos conectivos, no canal deste rio e observar quais elementos era mais transportados e quais eram menos. Desta maneira, ele chegou a um padrão conhecido até hoje como Grupos de Voorhies. Como resultado de suas observações ele estabeleceu três grupos. No Grupo I encontram-se os elementos removidos quase que imediatamente pela corrente, sendo compostos por falanges, carpais (ossinhos das mãos) e tarsais (ossinhos dos pés) e ossos porosos como o esterno e as vertebrais sacrais. No Grupo II se encontram os restos removidos aos poucos, como os fêmures, úmeros, tíbias, fíbulas e costelas. Por fim, no Grupo III estão os chamados "depósitos residuais", compostos por elementos pesados e pouco transportáveis como o crânio e a mandíbula.

GRUPO - ELEMENTOS

I - Falanges, ulnas, rádios, esterno, tarsais, carpais e vértebras
II - mero, fêmur, costelas
III - Crânio, mandíbula e dentes
Grupos de Voorhies, característicos de concentrações por transporte hidráulico.
Desta maneira, a análise dos Grupos de Voorhies é de fundamental importância para aclarar a questão da transportabilidade seletiva dos ossos. Concentrações cujo maior número de ossos pertença ao Grupo I englobam elementos muito transportados, geralmente alóctones, o que dificulta muito fazer inferências sobre o habitat dos animais. As concentrações ricas em elementos esqueléticos do Grupo II podem apresentar algum grau de aloctonia, mas não tanto a ponto de não se poder especular sobre o local onde o animal vivia. Já as caracterizadas por restos do Grupo III por serem depósitos residuais, são quase sem transporte e muito provavelmente autóctones.
Restos esqueletais de um cinodonte, parente dos mamíferos, que viveu no período Triássico (245 a 208 Ma). (A) dentes (A), vértebras (B), fêmur (C) e crânio (D) encontrados juntos, indicando que não houve seleção por transporte hidráulico (Grupos de Voorhies).
Portanto, para se entender como uma determinada concentração fossilífera foi formada pela ação do transporte seletivo, o tafônomo deverá tentar, ao menos, separar os restos esqueletais encontrados nos três grupos citados anteriormente.
É sabido que a desarticulação de um organismo e o transporte sofrido por seus restos estão intimamente relacionados, uma vez que muitas vezes o transporte se inicia quando a desarticulação ainda não terminou. Torna-se importante salientar, então, que nem sempre um baixo grau de desarticulação significa pouco transporte.

Baixo Grau de Desarticuçação = Pouco Transporte?

Nãaaaaaaao!!! Às vezes, carcaças podem flutuar por longas distâncias antes de os gases escaparem e elas afundarem. Peixes são um bom exemplo disso, pois quando morrem suas carcaças se inflam, cheias de gases da putrefação e acabam boiando.
Em outubro de 2006, mais de 30 toneladas de peixes foram encontrados boiando ao longo do Rio dos Sinos, na região metropolitana de Porto Alegre, RS.
O que ocorre, às vezes, é que carcaças inchadas pelos gases da putrefação, que ainda não tiveram os tecidos rompidos e se encontram cheias de gás no seu interior, o que diminui a densidade, são incorporadas pela carga do canal e podem ser transportadas por longas distâncias antes que estes gases escapem e a carcaça afunde.
Este processo é bastante importante de ser observado já que, muitas vezes, organismos são encontrados longe do seu verdadeiro habitat e caso o transporte não seja levado em consideração, o paleontólogo poderá interpretar erroneamente a presença deste grupo num determinado ambiente, levando a problemas graves nas reconstituições paleoecológicas.
Mas como podemos identificar as chamadas carcaças d'água? Observando se há um modo caótico na disposição dos ossos, sem a curvatura cervical observada em elementos articulados que foram soterrados sem terem sido transportados, já que, quando o gás escapa, o organismo afunda e a preservação ocorre do jeito que a carcaça se acomodou no fundo do corpo d'água.
Este espécime da ave primitiva Archaeopteryx lithographica, encontrado na Formação Solnhofen, do Jurássico Superior (161 a 145 milhões de anos atrás) apresenta uma curvatura cervical bastante comum em carcaças preservadas sem terem sofrido transporte (extraído de www.ucalgary.ca/~longrich/berlin2.jpg).
O leitor poderá observar, portanto, que não é fácil identificar se um esqueleto foi ou não transportado antes de ser soterrado, mas pelo menos terá em mente que se deve ter cuidado ao fazer certas especulações a respeito do habitat onde o animal vivia, já que muitas vezes podemos nos equivocar dizendo que um determinado organismo vivia num determinado ambiente só por ter sido encontrado lá, mas não necessariamente quer dizer que ele vivia ali! Para tentar auxiliar no entendimento do grau de transportabilidade, faça o exercício 3.