quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Tafonomia de Vertebrados - Necrólise e Desarticulação

Necrólise e Desarticulação

Logo que um organismo morre, dá-se início ao processo chamado de necrólise, que consiste na decomposição dos tecidos moles do corpo. Com exceção de alguns poucos casos, como quando os restos são soterrados em ambientes muito frios (como no caso dos mamutes encontrados em geleiras, que apresentavam os tecidos - pele, pelos, intestinos, etc - intactos), ou ainda em locais muito quentes e secos, que transformam os restos em múmias, os somente os ossos dos vertebrados são preservados.
As alterações pós-morte ocorrem nos primeiros dias ou semanas depois da morte do animal e são importantes porque ilustram como o tipo de morte influencia na história tafonômica de um resto orgânico. Geralmente passa tempo suficiente entre a morte e o soterramento de um determinado organismo, portanto, quase sempre a carcaça já perdeu os tecidos moles que a mantinham junta, facilitando, desta maneira, a sua desarticulação. Por isso é tão difícil encontrarmos fósseis de organismos articulados. Esqueletos fósseis articulados só são preservados quando: (1) o evento que matou o animal foi o mesmo que o soterrou; (2) quando o esqueleto ficou exposto em ambientes onde a taxa de decomposição dos tecidos é muito baixa (devido à carência de oxigênio, ao frio ou à aridez); (3) quando o tempo decorrido entre a morte do animal e o seu soterramento foi bastante curto, já dentro do sedimento a taxa de decomposição diminui, pois a temperatura é mais baixa e inibe o desenvolvimento das bactérias, ou porque dificulta o acesso de insetos necrófagos ao organismo.
O processo de necrólise ocorre devido a microorganismos (bactérias ou fungos que geram a putrefação), a pequenos organismos, como insetos, ou ainda a grandes organismos carniceiros.
Mas o que a necrólise dos tecidos moles tem a ver com a desarticulação? Articulação é definida como dois ou mais elementos esqueletais em sua posição anatômica original. Os ossos só se mantêm articulados, porque há tecidos moles, tais como músculos, tendões e cartilagens unindo-os. Quando estes tecidos se decompõem, os ossos ficam soltos e começa o processo de desarticulação, que é a separação dos elementos de um esqueleto. A desarticulação vai ser determinada pela anatomia básica do organismo e por fatores externos, como a necrólise, já mencionada, o transporte, o pisoteio e/ou a necrofagia.
Esqueleto de vaca em estágio intermediário de desarticulação. Nas fotos pode-se observar que os ossos do crânio e dos membros já estão desarticulados e levemente transportados para longe do resto do esqueleto, mas a coluna vertebral ainda se mantém firmemente conectada. Isso ocorre porque os ligamentos que a mantém unida são mais resistentes que os demais.
De uma perspectiva tafonômica, o estudo da desarticulação é bastante importante porque fornece subsídios para o entendimento dos eventos ocorridos no período pós-morte/pré-soterramento, já que os elementos que, em vida, estavam articulados, desarticulam-se e podem ser espacialmente dissociados ou ainda espalhados. A seqência de desarticulação vai depender da anatomia corporal, do clima (pode ocorrer mumificação) e do tempo decorrido entre a morte e o soterramento.
A seqência de desarticulação é um fator importante na análise da história tafonômica de um vertebrado e esta é determinada pelo tipo de articulação do elemento ósseo no esqueleto. Em vertebrados, a seqência normal de desarticulação, segundo Toots (1965) é a seguinte:
1) desconexão do crânio;
2) desencaixe da mandíbula;
3) desconexão das cinturas pélvica e escapular;
4) desconexão dos membros em ossos isolados;
5) desencaixe das costelas;
6) desarticulação da coluna vertebral.
O exercício 2 exemplifica como se dá a desarticulação do esqueleto de uma vaca.
Ao final das etapas acima resumidas, o fator intemperismo (processo pelo qual os componentes microscópicos orgânicos e inorgânicos de um osso são separados e destruídos por agentes físicos e químicos) e as várias fraturas decorrentes deste processo começam a predominar sobre as etapas da desarticulação.
Em termos gerais, o que ocorre antes que o intemperismo comece a atuar são alterações na seqência de desarticulação esqueletal. Os fatores alteradores mais comuns são a ação de carnívoros/necrófagos, que arrancam pedaços da carcaça e alteram a sequência normal, ou ainda a sedimentação total (que impede que o esqueleto se desarticule) ou a parcial (onde a porção soterrada se mantém conectada enquanto a exposta à superfície desarticula).
A importância da análise do grau de desarticulação se dá pelo fato de que, em geral, restos esqueletais com um baixo grau de desarticulação indicam pouco tempo decorrido entre a morte e o soterramento, enquanto que um maior grau de desarticulação indica maior tempo decorrido entre estas duas etapas.