quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Espeleologia

A espeleologia é a ciência que estuda o mundo subterrâneo natural, ou seja, as grutas. Este estudo compreende várias áreas do conhecimento, entre elas, a geologia, biologia, arqueologia, geografia, climatologia e topografia.
O estudo geológico das grutas e sua envolvente tem como finalidade a compreensão dos processos envolvidos na sua génese, evolução e os fenómenos que causam o seu desaparecimento. Paralelamente, o estudo da fauna e do meio ambiente cavernícola é importante para a compreensão do modo de evolução e adaptação dos seres vivos às diferentes condições do meio.
Outra característica de grande relevância no estudo do meio subterrâneo é a existência, a maior parte das vezes em excelente estado de preservação, de restos humanos e de vestígios da sua actividade ao longo de milhares de anos. A preservação destes "documentos" deve-se à ausência da acção dos agentes erosivos que ocorrem à superfície.

O que é uma gruta?

Uma gruta é uma cavidade subterrânea de origem natural com dimensões suficientes para uma pessoa lá entrar e pode ter as mais variadas dimensões, desde métricas a quilométricas.
As grutas desenvolvem-se quer vertical quer horizontalmente e podem ser simples ou bastante complexas. Quanto mais complexa for a gruta, maior é a quantidade de salas, galerias, túneis e condutas, todos interligados e em qualquer direcção no espaço. (Por vezes as galerias têm orientações bem definidas, quando a dissolução se dá preferencialmente ao longo de planos de fractura).
As grutas formam-se em todos os tipos de rocha, embora com processos de génese diferentes. Ocorrem mais frequentemente em rochas calcárias e é porventura nestas rochas, que se formam as mais belas grutas, na medida em que exibem cores e formas muito mais variadas que em quaisquer outras. Normalmente, as grutas em rochas carbonatadas são as que apresentam maior complexidade.
As grutas podem ser classificadas em primárias e secundárias. As primárias são aquelas que se formam contemporaneamente à rocha e as secundárias, após a sua formação.
Assim, os exemplos de grutas primárias são:
a) Em rochas basálticas - os túneis de lava são cavidades que resultam do escoamento da lava expelida numa erupção vulcânica: a lava que escoa pelas encostas do vulcão tende a consolidar devido ao arrefecimento rápido da sua superfície externa, permanecendo canais no seu interior, por onde a lava continua a escorrer. Quando se dá o fim da actividade vulcânica, esses canais ficam frequentemente ocos, formando-se assim, os túneis.
b) Em recifes de coral - à medida que os recifes de coral se vão formando, podem gerar-se espaços com dimensões suficientes para constituir grutas.
As grutas secundárias resultam de processos de alteração química e mecânica nas rochas. Esses processos ocorrem simultaneamente e dependem sempre da acção da água e da gravidade.
A acção química da água nas rochas resulta num importante processo de alteração. Como consequência, alguns minerais vão ser alterados na sua composição, dando origem a outros. Estas alterações mineralógicas em simultâneo com a acção mecânica da água que passa através das fracturas, falhas, diaclases e porosidade das rochas, vão ajudar a alargar os espaços que já existam e, consequentemente, a aumentar o grau de conectividade entre essas superfícies, gerando espaços cada vez maiores.
 
Figura 1 - Representação esquemática de uma gruta em rocha calcária representada em corte. Vê-se os vários tipos de galerias (inundadas, activas e fósseis), bem como, alguns espeleotemas. À superfície estão representadas as zonas de entrada de água para o sistema cársico (dois algares, neste caso) e as cristas cársicas, formas de relevo típicas da paisagem cársica.
Esquema retirado de: http://rashidfaridi.wordpress.com


Grutas em calcário:

A génese das grutas calcárias baseia-se na acção química da água acidificada, ao longo do seu percurso pela rocha. Para que a acção química seja mais eficiente, é importante que existam superfícies de escoamento de modo a facilitar a entrada da água e, por conseguinte, aumentar a superfície de contacto entre a água e a rocha.
Essas superfícies são as falhas, fracturas, diaclases e a própria superfície de estratificação.
Grosso modo, pode dizer-se que a acção química da água ácida vai ter como resultado a dissolução da rocha, principalmente ao longo destes planos de escoamento, alargando-os e criando espaços no seio da rocha.
A acção da água:
A água da chuva vai ficando acidificada ao atravessar a atmosfera, enriquecendo em dióxido de carbono, pelo seguinte processo:
H2O + CO2 <------------> H2CO3
(água + dióxido de carbono = ácido carbónico)
Ao atravessar o solo a água vai reagir com os componentes húmicos (ácidos húmicos) que derivam da decomposição da matéria orgânica vegetal, ficando ainda mais ácida. A partir do ponto em que a água começa o seu percurso para o interior da rocha até entrar na rede de fracturação, propriamente dita, começam a ocorrer as reacções de alteração com a rocha carbonatada:
CaCO3 + H2O + CO2 <-------------> Ca(HCO3)2
(calcite + água + dióxido de carbono = bicarbonato de cálcio)
Nas rochas calcárias é frequente encontrar-se nas zonas deprimidas, em corredores, ou simples covas, um material argiloso denominado terra rossa. Este é um material residual que constitui as "impurezas" contidas no calcário que, após a sua dissolução se acumula nos espaços vazios e na rede de fracturação. A terra rossa é constituída por argilas, areias e minerais de óxido de ferro e tem uma cor avermelhada escura.
Figura 2 - Corte em calcários onde se pode observar a terra rossa resultante da alteração da rocha.
A terra rossa encontra-se nos espaços vazios e à superfície, constituindo o solo (solo de alteração).
Foto retirada de www.wingara.com.au
À medida que os espaços se vão abrindo cada vez mais, vão surgindo galerias conectadas ou não, que podem atingir alguns quilómetros de comprimento.
As grutas desenvolvem-se em todas as direcções do espaço, sendo que, a maioria das galerias se desenvolve na horizontal ou perto dela e, a ligá-las, surgem muitas vezes os poços, que são condutas verticais mais ou menos arredondadas e que podem atingir centenas de metros de desnível. A ligar galerias e poços surgem também, muito frequentemente, os túneis, que são também condutas, mas de dimensões mais reduzidas e muitas vezes, podem ser bastante inclinados.
Figura 3 - Topografia de uma gruta, neste caso, da Lapa do Fumo (planta, cortes e alçados). A Lapa do Fumo localiza-se no concelho de Sesimbra e este trabalho topográfico foi cedido pelo NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul e realizado pela sua equipa de topografia (João da Luz e Armando Ribeiro).
Toda esta rede de galerias, salas, poços e túneis pode estar, ou não, permanentemente alagada. Tendo em conta a presença ou não de água numa gruta, as galerias são classificadas como:
- galerias fósseis, se não têm circulação de água;
- galerias semi-activas, se a água circula temporariamente;
- galerias activas, se tiverem água a circular permanentemente.
Ao longo da vida de uma gruta vão ocorrendo fenómenos que lhe vão alterando a forma e as dimensões, ou seja, para além dos processos de dissolução da rocha e que continuam a fazer aumentar os espaços, geram-se grandes vazios na rocha que lhe vão causar instabilidade. Assim, ocorrem desmoronamentos e abatimentos dentro da gruta. Sucessivamente, estes acontecimentos vão deixando no chão um depósito detrítico, e, têm também a particularidade de fazer a gruta "crescer" de baixo para cima, uma vez que a profundidade dos tectos começa a ser menor, tal como a do chão que, a cada abatimento que ocorra, passa a ser constituído pelos blocos caídos.
Contemporaneamente a todos estes processos vai ocorrendo a precipitação dos espeleotemas. Os mais frequentes são as estalactites, estalagmites, colunas e bandeiras, entre muitas outras formas. Os espeleotemas resultam da precipitação de minerais carbonatados (na sua maioria), sendo os mais comuns a calcite, dolomite e aragonite. Atendendo ao processo químico que lhes dá origem, os espeleotemas resultam da seguinte reacção química, que é a inversa da anterior:
Ca(HCO3)2 <-------------> CaCO3 + H2O + CO2
(bicarbonato de cálcio = calcite + água (evaporação) + dióxido de carbono (libertação para a atmosfera))
Esta reacção dá-se sempre que se verifique alguma destas condições:
- Diminuição da pressão da água que circula na rocha. Isto acontece quando a água atinge espaços abertos;
- Aumento de temperatura;
- Aumento na velocidade de escorrência da água.
Assim sendo, sempre que ocorra a libertação de dióxido de carbono da água, o material "tirado" à rocha, volta a precipitar, mas agora na forma de espeleotemas.
Os espeleotemas:
Estalactites
As estalactites formam-se a partir do tecto das cavidades crescendo na vertical e podem ser de dois tipos: as estalactites e as estalactites tubulares.
As estalactites tubulares formam-se a partir de um ponto de saída de água no tecto (uma fractura, fissura ou falha) por onde a água vai gotejando e precipitando a calcite. Estas tubulares têm sempre um canal de alimentação interno, ou seja, são ocas. No entanto, em qualquer altura podem ficar obstruídas e deixar de ser alimentadas internamente, continuando a crescer apenas pela precipitação mineral resultante da água que escorre por fora.
Por outro lado, as estalactites resultam do facto de, em determinadas circunstâncias, a água de escorrência do tecto se "dirigir" para um ponto específico devido a uma qualquer irregularidade na forma do tecto e aí precipite calcite formando uma estalactite sem canal interno. Neste caso, as estalactites vão se formando em películas externas, fazendo com que, quase sempre, tenham um maior diâmetro que as tubulares que, como o próprio nome indica, têm o aspecto de tubos finos, mais ou menos compridos. Note-se que uma estalactite tubular quando fica obstruída pode começar a crescer como uma estalactite, ou seja, através da escorrência externa de água ao longo da mesma.
É frequente encontrar-se estalactites nas extremidades mais compridas das bandeiras, ponto a partir do qual a água goteja para o chão.

 
Figuras 4,5 e 6 - Gruta do Frade (Arrábida - Sesimbra). Estalactites e estalactites tubulares. Na primeira fotografia pode ver-se o corte transversal de uma estalactite e as várias "bandas" de precipitação mineral e nas seguintes, além das formas de tecto, observam-se estalagmites.
Fotografias de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Estalagmites
As estalagmites formam-se na dependência das estalactites, resultando da precipitação mineral pela água que atinge o chão. Podem ter várias formas e tamanhos, sendo sempre mais grossas que as estalactites, devido à aspersão da água quando atinge o chão.
Figura 7 - Gruta do Frade (Arrábida - Sesimbra). Estalagmites de vários tamanhos.
Fotografia de Pedro Costa, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Colunas
As colunas formam-se quando uma estalagmite e uma estalactite se tocam.
 
Figuras 8 e 9 - Gruta do Frade (Arrábida - Sesimbra). Colunas. Por vezes é notória a diferença entre a parte que corresponde à estalactite (mais fina, acima) e à estalagmite (mais grossa e abaixo).
Fotografias de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Bandeiras
As bandeiras resultam do escorrimento da água numa superfície inclinada, normalmente um tecto. A água em vez de pingar escorre, contornando as irregularidades, fazendo um percurso algo sinuoso. À medida que vai escorrendo, vai precipitando calcite em bandas ao longo desse percurso. A maior parte das vezes, as bandeiras têm uma espessura idêntica à da gota e podem atingir mais de um metro de comprimento. Formam uma película de calcite "pendurada", que faz lembrar uma bandeira ou cortina.
 
Figuras 10 e 11 - Gruta do Frade (Arrábida - Sesimbra). Nesta gruta existem bandeiras espectaculares. Apresentam-se grandes ou pequenas em comprimento, umas mais onduladas outras menos, e, em muitos casos apresentam-se ornamentadas por outras espeleoformas, como por exemplo, tubulares, excêntricas, cristais em agulhas, etc..
Fotografias de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
 
Figura 12 - Gruta do Zambujal (Arrábida - Sesimbra). Bandeira.
Fotografias de Francisco Rasteiro,
NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Excêntricas
As excêntricas são formas de concrecionamento muito particulares. São muito finas, crescem em todas as direcções do espaço e a sua génese é controversa.
Consistem na sua maioria em finíssimos tubos de calcite ou aragonite que crescem a partir do tecto, paredes ou do chão, desafiando as leis da gravidade.
O seu canal de alimentação é tão fino, que a água circula por capilaridade. Estas forças são superiores à força da gravidade e como resultado, estes espeleotemas desenvolvem-se em qualquer direcção.
Além destes espeleotemas existem muitos mais, tais como, os gours, coralóides, pérolas de gruta, flores, medusas, bolas e mantos, entre outros. Uma característica particular nas formas de concrecionamento das grutas calcárias, é que qualquer um destes espeleotemas pode apresentar-se com aspectos diferentes (costuma dizer-se que não há duas estalactites iguais), bem como, pode surgir uma imensa variedade de combinações entre eles.
Embora haja pequenas diferenças que os levem a formar-se de uma forma ou de outra, o princípio é sempre o mesmo: precipitação química de calcite ou outros minerais.

 
Figuras 13, 14 e 15 - Gruta do Frade (Arrábida - Sesimbra). Exemplos de excêntricas. Nesta gruta existe pelo menos uma excêntrica que se pensa medir cerca de 1 metro de comprimento, embora seja extremamente difícil calcular essa medida devido à forma retorcida que apresenta.
Fotografias de Francisco Rasteiro,
NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Seguem-se alguns exemplos de gours, flores, agulhas, mantos e bolas, entre outros espeleotemas.
Figura 16 - Gruta do Frade (Arrábida - Sesimbra), Gour das Árvores. Este nome deve-se às "árvores" de calcite que aqui cresceram. A mais alta atinge os 20 cm.
Fotografias de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Um gour é uma depressão que está normalmente preenchida com água e onde a calcite pode precipitar em redor, no interior, ou ainda à superfície em finíssimas películas (neste caso, chama-se calcite flutuante). Na fotografia anterior, pode ver-se ainda: estalagmites, estalactites e manto calcítico a forrar o chão. Actualmente o gour das árvores está seco.
 
Figura 17 - Gruta do Frade (Arrábida - Sesimbra). Baptizado de Gour da calcite flutuante, aqui costuma encontrar-se uma fina película de calcite à superfície.
Fotografia de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Figura 18 - Gruta do Frade (Arrábida - Sesimbra). Neste gour que se encontra actualmente seco, pode ver-se os vários níveis a que a água já esteve, materializados por "bandas" de calcite (cerca de 15 níveis).
Fotografia de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
 
Figura 19 - Gruta do Frade (Arrábida - Sesimbra). Aqui a diferença entre a calcite que precipitou dentro e fora de água, é bem evidente. Nota-se ainda a forma de auréola que a calcite formou no bordo do gour.
Fotografias de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Figura 20 - Gruta do Frade (Arrábida - Sesimbra). Pormenor de um gour.
Fotografias de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
 
Figuras 21, 22, 23, 24 e 25 - Correspondem respectivamente a formas de tecto (bolas, estalactites e tubulares); Tubulares com as extremidades coloridas de cor laranja (espeleotema pouco frequente, baptizado de "fósforos" ou "cotonetes"); Flores de calcite; Pérolas de gruta (correspondem à precipitação de calcite em redor de um núcleo, que pode ser um pequeno grão de areia, dentro de um gour, ou seja, em meio aquoso; e por fim, pormenor de uma tubular com a extremidade colorida onde se formaram agulhas de aragonite.
As fotografias são todas da Gruta do Frade, com a excepção das Pérolas de gruta que são da Gruta da Utopia, igualmente pertencente à zona da Arrábida - Sesimbra.
Autor das fotografias Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.


Grutas em granito:

A génese das grutas graníticas e afins, tem início num processo de alteração química que promove o alargamento dos espaços entre fracturas. Este alargamento deve-se, quer à acção química da água (hidrólise) nos minerais feldspatados (feldspatos), que os vai transformando em minerais de argila facilmente removíveis, quer à acção mecânica exercida pela água e detritos ao longo das fracturas.
A reacção química que traduz a hidrólise dos feldspatos é a seguinte:
2KALSi3O8 + H2CO3 + H2O <-------------> K2CO3 + Al2Si2O5(OH)4 + 4SiO2
(feldspato potássico + ácido carbónico + água = carbonato de potássio + caulinite (mineral de argila) + sílica)
A alteração mineralógica destas rochas vai facilitar a abertura de espaços ajudando, muitas vezes, ao surgimento de grutas. No entanto, apesar da ocorrência destes fenómenos, a maioria das grutas graníticas tem origem no desmoronamento dos blocos (caos de blocos) que ao cair se amontoam de uma forma que pode conter espaços abertos no seu interior.

Grutas em basalto:

As grutas basálticas consistem na sua maioria em túneis de lava. Resultam da consolidação de canais de escorrência da lava na sua parte externa, permanecendo o interior oco, por ter terminado a actividade vulcânica. Os canais podem ter dimensões variáveis, quer em altura quer em comprimento e podem ser simples, com uma só conduta, ou ser ramificados. Nestas cavidades podem observar-se algumas formas estalactíticas resultantes do "gotejar" de lava no interior do tecto do canal. É também frequente encontrar lava encordoada ao longo do chão do túnel.
Além dos túneis de lava existem também algares. Os algares resultam de antigas chaminés vulcânicas cuja actividade cessou, normalmente por ter surgido outra conduta de saída de lava numa posição inferior.
 
Figura 26 - Gruta de S. Vicente, Ilha da Madeira. Túnel de lava.
Foto de Ricardo Caranova.
Figura 27 - Túnel de lava onde se pode ver a lava ainda incandescente no seu interior.
Retirado de www.physics.mq.edu.au/~lmoore/Hawaii/Pahoehoe.jpg


Grutas em glaciares:

Estas grutas formadas no interior dos glaciares resultam de canais de passagem de água líquida no seu interior. São grutas instáveis e têm um tempo de vida relativamente curto. Estão em constante mudança, na medida em que a água líquida está constantemente a passar a gelo e vice-versa, alterando as formas da cavidade a cada mudança.
 
Figura 28 - Gruta em glaciar (Eisgrotte-Fee). Suíça.
Retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Eisgrotte_Feegletscher.jpg

Grutas em coral:

As grutas em coral formam-se a partir de espaços que permanecem durante o crescimento dos edifícios de coral. Normalmente estas cavidades não têm grandes dimensões.
Figura 29 - Fotografia tirada de dentro de uma gruta num coral, retirada de www.pbase.com

Grutas marinhas:

As grutas marinhas formam-se nas zonas de arriba e resultam da acção de erosão das ondas (abrasão marinha), que abre cavidades na rocha.
Geralmente, as grutas marinhas desenvolvem-se em rochas sedimentares estratificadas, onde ocorre alternância de camadas mais resistentes e outras menos resistentes à erosão.
A acção erosiva/abrasiva do mar vai desgastar preferencialmente as camadas sedimentares mais brandas (menos resistentes à erosão), criando assim espaços que podem ter as mais variadas dimensões, ou seja, as grutas marinhas.
Figura 30 e 31 - Lapa da Boca do Tamboril. Gruta marinha na zona da Arrábida - Sesimbra, onde se observa perfeitamente as camadas sedimentares no calcário
e onde a falta de uma parte das camadas, devido à erosão marinha e fracturação da rocha, "construiu" uma cavidade à qual se acede pelo mar.
Fotografias de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.


Localização de cavidades (calcárias) em Portugal continental:

As grutas calcárias mais importantes desenvolvem-se nos principais maciços calcários do país, ou seja, na Orla algarvia a sul, no Maciço Calcário Estremenho e na região de Condeixa, Alvaiázere e Sicó, mais a norte. No entanto, a zona da serra da Arrábida, S. Martinho do Porto, Lisboa e muitas outras áreas onde ocorrem rochas carbonatadas, podem albergar grutas.
Figura 32 - Mapa geológico à escala 1:500 000 com a localização aproximada das zonas calcárias onde se localizam as mais importantes grutas do país. Fonte: http://e-geo.ineti.pt
Em Portugal continental existe uma gruta classificada por lei, a Gruta do Zambujal, como Sítio Classificado de Interesse Espeleológico (Decreto Lei nº140/79 de 21 de Maio).
Esta gruta foi descoberta em 14/06/1978 e localiza-se no concelho de Sesimbra, distrito de Setúbal.
Situada na Pedreira da Cabreira que foi desactivada após a descoberta da gruta, esta foi classificada como resultado da sua singularidade e beleza em espeleoformas. Infelizmente sofreu forte vandalismo, além do que, a exploração de rocha calcária nas suas proximidades, tem contribuído ao longo dos anos para a sua deterioração, estando extremamente degradada com grande parte das estalactites, estalagmites e colunas partidas, e, tendo sofrido desmoronamentos no seu interior. O seu "clima" foi também alterado, fruto do encerramento de uma das entradas, com blocos de calcário. Este facto induziu fortes alterações nos valores de Humidade relativa e temperatura da cavidade e teve como consequência a degradação de muitos espeleotemas, bem como, a diminuição da dimensão da colónia de morcegos (morcego-de-peluche - Miniopterus schreibersii), que ali hiberna, bem como, a mudança de local escolhido por estes animais para a hibernação dentro da gruta.
Algumas espeleoformas que se encontram na gruta do Zambujal:
Figura 33, 34 e 35 - Vários aspectos de excêntricas raras em forma de "asas de borboleta", espeleoformas que além da sua raridade são muito belas.
Fotografias de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.

 
Figura 36 - Exemplar de excêntrica baptizado de "Cisne".
Fotografias de Francisco Rasteiro,
NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Figura 37 - Aproximadamente ao centro na foto, observa-se uma coluna idêntica à maioria nesta gruta, em forma de "pinheiro".
Fotografias de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.


Ecossistemas subterrâneos:

As condições ambientais dentro de uma gruta são obviamente muito particulares. A ausência de luz aliada à profundidade são, com certeza, os factores mais determinantes no clima das cavidades.
Desta forma, a temperatura tende a ser constante ao longo do ano, reflectindo a temperatura média anual da região onde a cavidade se encontra e a humidade tende a ser elevada.
É natural que se pense que neste ambiente não seja frequente encontrar seres vivos, mais que não seja, pela ausência de luz e de alimento. No entanto este pensamento está errado. Tal como a água chega a grandes profundidades, também a matéria orgânica por ela transportada, lá chega. Este material encontra-se em porções suficientes para constituir alimento a uma grande quantidade de seres vivos que, ao longo dos tempos se foram especializando a viver no ambiente das grutas.
Além da matéria que é arrastada pela água, também a actividade de alguns dos habitantes das grutas, principalmente os morcegos e algumas espécies de aves que nidificam nas entradas (como é exemplo em muitas cavidades do Maciço Calcário Estremenho, as gralhas-de-bico-vermelho), dá origem à matéria orgânica em ambiente cavernícola.
Biospeleologia:
Há uma grande variedade de seres vivos que habitam as grutas, quer seja permanentemente, quer seja só em algumas alturas da sua vida. Há ainda outros que por "acidente" se podem lá encontrar.
Aqueles que vivem exclusivamente no ambiente cavernícola são denominados Troglóbios. Ao longo dos tempos, estes seres especializaram-se geneticamente à vida neste ambiente. Assim, sofreram redução ou até mesmo ausência de órgãos de visão, desenvolvendo uma capacidade táctil admirável, recorrendo a apêndices que lhes permitem "ver" sem dificuldade. A sua pigmentação também sofreu uma grande redução, sendo maioritariamente desprovidos de qualquer tipo de ornamentação ou cor.
São geralmente de dimensões muito reduzidas (a maioria apresenta alguns milímetros, apenas). Pertencem maioritariamente ao Filo Arthropoda e são aranhas, pseudo-escorpiões e insectos.
Os seres troglóbios adaptaram-se não só às condições de vida fora, mas também, dentro de água. Existem cavidades onde se pode encontrar em galerias permanentemente inundadas e em grutas marinhas, algumas espécies de peixes perfeitamente adaptados à escuridão. Um troglóbio muito conhecido do mundo científico, é o Proteus (salamandra sem pulmões que respira através de guelras externas).
 
Figura 38 - Proteus anguinus.
Foto retirada de www.slovenia.info
Figura 39 - Proteus anguinus.
Foto retirada de www.blogosocialportugues.blogspot.com
Estes seres vivos, dada a sua especificidade a este meio ambiente cavernícola, são extremamente sensíveis a qualquer perturbação. Assim sendo, a preservação deste ambiente é fundamental para a sua sobrevivência.
Figuras 40 a 45 - Exemplares de troglóbios encontrados na Gruta do Frade, Lapa do Fumo e Gruta da Utopia, todas pertencentes ao sistema cársico da Arrábida, concelho de Sesimbra.
Fotografias de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Os Trogloxenos são animais que habitam as cavernas de forma ocasional, quando, por ex., as condições atmosféricas são adversas. Os mais comuns são os anfíbios e os répteis, como as salamandras, sapos ou as cobras. Além destes, ainda se podem encontrar dentro das cavernas os seres Acidentais. Esses são os que se encontram lá ocasionalmente, por "acidente", isto é, ou porque caem por alguma entrada ou são arrastados pela água.
Figura 46 - Lapa do Chão, Arrábida - Sesimbra. Trogloxeno (sapo).
Fotografia de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Além destes, existem ainda ainda os chamados Troglófilos. Estes, são seres que só habitam as grutas em alguma fase do seu ciclo de vida (reprodução ou hibernação). Como exemplo de seres troglófilos, surgem algumas espécies de morcegos. Tal como já foi referido, a importância destes seres no ecossistema cavernícola é muito grande, pois o seu guano é fonte de matéria orgânica neste ambiente.
   
Figura 47 - Morcego cavernícola da espécie Rhinolophus ferrumequinum.
Fotografia de Ana Raínho, ICNB_ Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade.
Figura 48 - Morcego cavernícola da espécie Rhinolophus hipposideros.
Fotografia de Ana Raínho, ICNB_ Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade.
Figura 49 - Morcegos cavernícolas da espécie Rhinolophus mehelyi.
Fotografia de Ana Raínho, ICNB_ Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade.


Fragilidade e Preservação dos Maciços Calcários

A existência de grutas nos maciços calcários e a importância que tem o seu património natural, nomeadamente, espeleológico, geológico e biológico (este último, devido à especificidade dos seres que habitam as grutas não lhes permitir sobreviver se houver a mais pequena alteração ambiental), faz com que a preservação destes maciços seja fundamental. Aliado a todas estas características, há ainda o facto de estes maciços constituírem a maioria das vezes, importantíssimos aquíferos o que, vem reforçar a necessidade de preservação destas áreas. A circulação de água dentro destas massas rochosas é desprovida de grande parte da filtragem natural, isto é, o coberto vegetal característico destas zonas carsificadas, é na maioria das vezes, muito pouco evoluído e muito frequentemente não existe sequer solo, o que, vai ter como consequência a fraca ou nula filtragem das águas. Por outro lado, a dimensão dos canais de escoamento nestes maciços (algares, sumidouros, poços) vai deixar passar para a profundidade bastantes detritos transportados pela água, assim como outros agentes poluentes. Deste modo, é de extrema importância a preservação do ambiente através da regulação da actividade humana, principalmente a que está associada a estas zonas carsificadas, a fim de prevenir eventuais episódios de contaminação dos aquíferos.
Como se disse no início, a espeleologia é uma ciência que estuda as grutas. E esse estudo é maioritariamente levado a cabo pelos espeleólogos.

Quem são os espeleólogos?

Os espeleólogos têm que ter uma forte apetência pelo ambiente subterrâneo, estar bem preparados fisicamente, e ainda, enfrentar alguns riscos! Não é exigida qualquer formação académica a nível superior, mas é de extrema importância que o espeleólogo possua o mínimo de conhecimentos para que a sua presença nas grutas seja útil, construtiva, com segurança e ao mesmo tempo, saiba preservar o meio. Para tal, a FPE - Federação Portuguesa de Espeleologia (www.fpe-espeleo.org) ministra cursos de formação de espeleologia aos elementos das associações do país.
A actividade espeleológica consiste em várias etapas. A primeira, a de prospecção, consiste na procura em zonas com apetência para a existência de grutas (zonas calcárias, por ex.), de possíveis entradas de cavidades. A segunda, e depois de encontrar uma cavidade, consiste na exploração do espaço, isto é, fazer a progressão possível dentro da gruta e a identificação dos espaços (salas, poços, galerias, etc.). Por vezes, em galerias inundadas e em sifões, recorre-se ao espeleomergulho. A par da actividade de exploração, pode realizar-se a topografia e a identificação de possíveis zonas a desobstruir.
A caracterização geológica, bem como, o estudo da sua climatologia, biologia, hidrologia e possível arqueologia, entre outros, são os contributos necessários e essenciais na compreensão do mundo subterrâneo e fazem parte do trabalho de investigação espeleológica.
Nas actividades de espeleologia e por questões de segurança, uma equipa nunca deve ser constituída por menos de três elementos, existindo regras de conduta a que é obrigatório obedecer.
Para se efectuar qualquer tipo de trabalho ou até uma simples visita a uma gruta, é essencial que os espeleólogos estejam munidos do seu equipamento individual e do equipamento colectivo, caso haja necessidade.
O equipamento individual consiste no fato (que pode ser impermeável), capacete, luz (LED’s ou gasómetro), luvas, cinto e calçado apropriado (botas ou galochas).
O equipamento colectivo é aquele que é necessário levar para uma cavidade sempre que haja necessidade de fazer rappel ou passar corrimãos (em poços, chaminés ou algares, por ex.), isto é, sempre que haja necessidade de equipar uma gruta. Consiste em cordas, fitas, plaquetes, pernes, protecções, roldanas e sacos de transporte.
No caso de se ter que fazer uma equipagem de uma cavidade e, por conseguinte, os espeleólogos terem que fazer rappel, existe mais uma "peça" de equipamento individual que é o chamado kit de verticais. Este, consiste num conjunto de peças e equipamento que o espeleólogo "veste" e que lhe permitem descer e subir recorrendo a uma corda como meio de progressão.

 
Figuras 50 e 51 - Espeleólogo equipado com fato próprio, capacete com LED's e calçado confortável.
Fotografias de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.

 
Figura 52 e 53 - Espeleólogo a fazer rappel em gruta (figura 49). Fotografia de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Na figura 50 pode observar-se bem uma das peças do equipamento que se "veste" o boudrier ou cadeira. Fotografia retirada de www.sawdustmemoriesonline.com/Travel%20.html

Figura 54 - Acesso à Gruta do Cabo. Cabo Espichel.
Fotografia de Francisco Rasteiro, NECA - Núcleo de Espeleologia da Costa Azul.
Apesar dos riscos inerentes à actividade espeleológica, é uma actividade fascinante, que além de permitir usufruir de locais de uma beleza incrível, permite também fomentar o convívio e o trabalho em equipa.

fonte: LNEG (Laboratorio nacional de energia e Geologia)